No coração do bloco operatório 😷
Por volta das 19h, ouvi alguém dizer:
“É para levar a Susana para o bloco.”
O momento tinha chegado 💪💪 Tão esperado e, ao mesmo tempo, tão temido.
Deixei os óculos no quarto. Sou míope, sabia que tudo ficaria desfocado. Talvez fosse melhor assim.
Levei comigo o sutiã com abertura à frente, comprado na Women’secret, de uma linha especial para mulheres com cancro da mama. Comprei dois: um branco e um cinzento. Sabia que teria de o usar dia e noite, durante pelo menos 30 dias.
Levaram-me deitada na cama, atravessando corredores e entrando no elevador. Quando cheguei a uma das salas do bloco operatório, começaram a chegar várias pessoas. Apresentavam-se com nome e função. Vou tentar escrever tudo aquilo de que me lembro em relação à operação pois, quero que esta partilha sirva não só para informar amigos e família, mas também outras mulheres que venham a passar por esta doença.
Puseram-me meias de contenção. A senhora teve alguma dificuldade em calçá-las. Disse-lhe que era normal pois calço o 41 😂
Veio outra pessoa ajustar o cateter. Depois, apareceu a anestesista, muito simpática. Fez-me algumas perguntas, quis saber se estava nervosa, se queria um calmante.
Respondi que não. O que eu queria mesmo era que me tirassem o tumor 🤞🤞
Sempre que me perguntavam como me sentia, respondia:
“Tenho fome.” 😂 Estava em jejum há 12 horas. E o soro não mata a fome.
Levaram-me para outra sala. Colocaram a maca ao lado da cama e pediram-me que me transferisse, com ajuda. Verificaram se estava bem centrada. Cobriram-me com um lençol quentinho. Que gesto tão reconfortante ❤️
Entrei no bloco operatório. Reconheci-o pelas grandes lâmpadas à minha frente. A anestesista colocou-me uma máscara de oxigénio, “para respirar bem”, disse ela, deixando espaço para eu ainda conseguir falar. Colou algo na minha testa e, com um sorriso, comentou:
“É para ler os seus pensamentos.”
Respondi:
“O primeiro pensamento é que estou com fome. Gosto muito de comer.” 😋😋
Ela riu-se. Afinal, quem entra no bloco a queixar-se de fome?
Outro membro da equipa concordou comigo:
“Comer é mesmo um dos grandes prazeres da vida.”
Senti tirarem-me o lençol quentinho. Colocaram algo quente nos pés. Estenderam os meus braços — primeiro o direito, depois o esquerdo. Fiquei em cruz. As pernas tremiam. Ou terei imaginado?
Olhei para as lâmpadas. A imagem começou a turvar.
Pensei:
“Já enviou a anestesia.”
Tentei abrir os olhos, mas já não consegui.
Ouvi ainda a anestesista perguntar:
“Então diga-me lá, o que gosta de comer?”
Mas já não consegui responder.
Mergulhei num sono profundo.
Quando acordei, estava numa sala ampla. Era a única doente naquele momento.
Senti logo duas coisas: dor de garganta e o braço e a mão dormentes.
Levei a mão direita ao peito esquerdo.
Ainda lá estava. Não precisaram de tirar tudo 🙏
Disseram-me que iam contactar o serviço de cirurgia para me virem buscar.
Quando cheguei ao quarto, pedi os meus óculos e o telemóvel à enfermeira. Já eram 22h40 e queria escrever ao grupo de WhatsApp da família, com o meu marido e os nossos dois filhos.
Escrevi apenas:
“Estou acordada. Amo-vos muito ❤️ Até amanhã.”
E adormeci.
Obrigada por estarem desse lado 🙏❤️
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