02/06/2025 Voltar à lista

No coração do bloco operatório 😷

Por volta das 19h, ouvi alguém dizer:

“É para levar a Susana para o bloco.”

O momento tinha chegado 💪💪 Tão esperado e, ao mesmo tempo, tão temido.

Deixei os óculos no quarto. Sou míope, sabia que tudo ficaria desfocado. Talvez fosse melhor assim.

Levei comigo o sutiã com abertura à frente, comprado na Women’secret, de uma linha especial para mulheres com cancro da mama. Comprei dois: um branco e um cinzento. Sabia que teria de o usar dia e noite, durante pelo menos 30 dias.

Levaram-me deitada na cama, atravessando corredores e entrando no elevador. Quando cheguei a uma das salas do bloco operatório, começaram a chegar várias pessoas. Apresentavam-se com nome e função. Vou tentar escrever tudo aquilo de que me lembro em relação à operação pois, quero que esta partilha sirva não só para informar amigos e família, mas também outras mulheres que venham a passar por esta doença.

Puseram-me meias de contenção. A senhora teve alguma dificuldade em calçá-las. Disse-lhe que era normal pois calço o 41 😂

Veio outra pessoa ajustar o cateter. Depois, apareceu a anestesista, muito simpática. Fez-me algumas perguntas, quis saber se estava nervosa, se queria um calmante.

Respondi que não. O que eu queria mesmo era que me tirassem o tumor 🤞🤞

Sempre que me perguntavam como me sentia, respondia:

“Tenho fome.” 😂 Estava em jejum há 12 horas. E o soro não mata a fome.

Levaram-me para outra sala. Colocaram a maca ao lado da cama e pediram-me que me transferisse, com ajuda. Verificaram se estava bem centrada. Cobriram-me com um lençol quentinho. Que gesto tão reconfortante ❤️

Entrei no bloco operatório. Reconheci-o pelas grandes lâmpadas à minha frente. A anestesista colocou-me uma máscara de oxigénio, “para respirar bem”, disse ela, deixando espaço para eu ainda conseguir falar. Colou algo na minha testa e, com um sorriso, comentou:

“É para ler os seus pensamentos.”

Respondi:

“O primeiro pensamento é que estou com fome. Gosto muito de comer.” 😋😋

Ela riu-se. Afinal, quem entra no bloco a queixar-se de fome?

Outro membro da equipa concordou comigo:

“Comer é mesmo um dos grandes prazeres da vida.”

Senti tirarem-me o lençol quentinho. Colocaram algo quente nos pés. Estenderam os meus braços — primeiro o direito, depois o esquerdo. Fiquei em cruz. As pernas tremiam. Ou terei imaginado?

Olhei para as lâmpadas. A imagem começou a turvar.

Pensei:

“Já enviou a anestesia.”

Tentei abrir os olhos, mas já não consegui.

Ouvi ainda a anestesista perguntar:

“Então diga-me lá, o que gosta de comer?”

Mas já não consegui responder.

Mergulhei num sono profundo.

Quando acordei, estava numa sala ampla. Era a única doente naquele momento.

Senti logo duas coisas: dor de garganta e o braço e a mão dormentes.

Levei a mão direita ao peito esquerdo.

Ainda lá estava. Não precisaram de tirar tudo 🙏

Disseram-me que iam contactar o serviço de cirurgia para me virem buscar. 

Quando cheguei ao quarto, pedi os meus óculos e o telemóvel à enfermeira. Já eram 22h40 e queria escrever ao grupo de WhatsApp da família, com o meu marido e os nossos dois filhos.

Escrevi apenas:

“Estou acordada. Amo-vos muito ❤️ Até amanhã.”

E adormeci.

Obrigada por estarem desse lado 🙏❤️

Adicione um comentário

Comentários

Número de comentários: 0