Gratidão, lágrimas e coragem: a caminho da cirurgia 💉
Enquanto aguardávamos pela motorista, fui conversando com a outra senhora sobre o meu cancro. Ao ouvir-nos, uma terceira senhora juntou-se à conversa. Também ela tinha tido cancro da mama. Estava ali para a reconstrução mamária, adiada já por várias vezes.
Nesse momento, senti-me profundamente grata 🙏🙏🙏
Grata à senhora que me deixou passar à frente.
Grata à médica e à equipa, que foram impecáveis e competentes.
Grata às pessoas que me acompanharam e cuidaram de mim com carinho, até a apertar o cinto da ambulância, fizeram-no com delicadeza.
Na viagem de volta ao hospital das Caldas da Rainha, li mensagens de apoio que me tinham enviado por WhatsApp e Messenger. No início deste caminho duro que é o da luta contra o cancro, o meu coração ficou cheio. As lágrimas começaram a cair-me dos olhos 😭
Chorei durante alguns minutos. E chorei sem vergonha, porque chorar também é força. Mostra que sou humana. Sensível. Viva.
Quando cheguei ao serviço de cirurgia, ficaram todos surpreendidos 😲
- “Já está de volta? Que rapidez!”
Agradeci à senhora que me acompanhou e que me desejou boa sorte 🙏
Sem poder comer nem beber, começou então a longa espera pela cirurgia.
A enfermeira veio ver-me e, como lhe disse que estava a começar a sentir dores por causa do arpão, sugeriu colocar já o cateter no braço, para poder administrar-me um analgésico.
Disse-me:
- “Sofrer no hospital, não!”
Colocou-me o cateter a meio do braço 🩹 Não doeu. Além do medicamento para as dores 💊 mais tarde recebi também soro, para não ficar desidratada
Conversei um pouco com essa enfermeira, uma mulher simpática, sobre vários temas: família, trabalho, a vida dos jovens em Portugal e o sentido da vida.
Contou-me uma história que não vou esquecer.
Disse-me que trabalha naquele hospital há 25 anos. Logo no início, conheceu um doente, um senhor com icterícia. Contou-lhe a sua história para que ela não cometesse o mesmo erro.
Esse homem e a mulher trabalharam a vida inteira. Pouparam cada tostão. Nunca foram de férias. Queriam aproveitar a vida na reforma.
Mas, quando ele se reformou, soube que tinha um cancro no fígado. Deram-lhe seis meses de vida.
- “Dá que pensar, não é?”, disse ela.
E sim. Dá muito que pensar 😔
Entretanto, já com o medicamento a fazer efeito, chegou a minha colega de quarto, acompanhada pelo marido e pela filha. Era uma senhora muito magra, com pouco cabelo, sinais de que já tinha passado pela quimioterapia 😢
No telemóvel, continuei a ler as mensagens que me iam chegando. Sentia-me menos só naquele quarto de hospital.
Chegou a médica que me iria operar. Sempre sorridente e bem-disposta 😊
Tinha comentado com a enfermeira que o corante para a biópsia do gânglio sentinela já tinha sido injetado há duas semanas. A médica tranquilizou-me:
- “Não se preocupe, o efeito dura um mês.”
Aproximou-se de mim e desenhou uma seta em direção da minha mama. Com o arpão e o penso enorme, disse-lhe:
- “Acho que não há como enganar.”
A médica explicou que a minha vizinha de quarto seria operada primeiro, pois a sua cirurgia já tinha sido adiada. Eu seria a segunda. Pediu-me também que não me esquecesse de levar o sutiã para o bloco, queriam colocá-lo logo após a operação.
A minha colega subiu para o bloco por volta das 14h15. Enquanto isso, fui tentando ocupar-me. Vi um pouco de televisão, mexi no telemóvel.
Mas o que mais me ajudou foi escrever, num pequeno caderno, todos os detalhes do que estava a viver. Queria registar tudo 🙌
Estava ansiosa, claro. Era a minha primeira cirurgia.
Mas, mais do que medo, o que sentia era uma vontade imensa de que retirassem o tumor.
Queria tanto que ele saísse do meu corpo!
As horas foram passando. Quando eram 18h, o receio instalou-se: e se adiassem a minha operação?
Falei com a enfermeira. Ela tranquilizou-me.
- “Não se preocupe. Isso não vai acontecer. A sua médica vem de propósito para operar casos de cancro da mama.”
E assim, continuei à espera. Com esperança. Com coragem.
Com o coração preparado para o que viesse a seguir.
Obrigada por estarem desse lado 🙏❤️
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