O dia em que me colocaram o arpão 🚑
Na segunda-feira, acordei surpreendentemente bem-disposta. Eram 6h30 quando vieram perguntar o que queria para o pequeno-almoço. Pedi um chá e duas torradas com doce. Souberam-me mesmo bem. Talvez porque, naquele momento, cada coisa simples ganhava outro sabor 😊
A partir das 7h já não podia comer nem beber. A cirurgia seria à tarde.
Deram-me também um comprimido para proteger o estômago 💊 e, depois, tomei mais um duche com o produto desinfetante. Vesti o pijama, pois iam levar-me ao hospital de Santarém para colocarem o arpão que marcaria o tumor.
Vieram buscar-me às 8h30, como previsto. Estava fresco nessa manhã nas Caldas da Rainha, e emprestaram-me um roupão para o caminho. Fui de ambulância de transporte de doentes não urgentes, acompanhada por duas senhoras muito simpáticas, uma delas era a motorista.
Fui sozinha na parte de trás, em silêncio. A viagem foi curta.
Ao chegarmos a Santarém, a motorista foi informar-se. Ouvi-a dizer:
- "É uma doente oncológica."
Essa palavra. Ainda me custa ouvi-la. Ainda me parece que estão a falar de outra pessoa. Mas não. Era de mim que falavam 🤷🏻♀
Enquanto esperávamos, abriram a porta do gabinete onde iriam colocar o arpão. As duas senhoras aproximaram-se para perguntar quanto tempo demoraria. Disseram que ainda não era a minha vez e que teria de aguardar. A motorista explicou que só podiam esperar 30 minutos, depois teriam de ir embora, deixando-me sozinha. Teriam de telefonar ao hospital para me virem buscar mais tarde.
Ao ouvir isto, a médica ficou indignada:
- "Como é possível deixarem-na aqui sozinha?"
Pouco depois, a assistente chamou-me. Lá dentro, já havia uma senhora para ser atendida, mas penso que ela deixou-me passar à frente.
Entreguei os exames à médica, o CD da ressonância magnética. Era uma senhora com alguma idade. Isso tranquilizou-me. Experiência não lhe faltaria.
Fiz uma mamografia da mama afetada e, depois, pediram-me para me deitar. Explicaram tudo com calma.
- "Espero que não doa tanto como a biópsia" disse eu, ainda com esse medo guardado 🙏
- "Sofreu durante a biópsia? Isso não é normal. Deviam tê-la anestesiado melhor."
Concordei em silêncio. Só quem passa por estas coisas sabe o quanto as dores que ficam não são só físicas 😢
Desta vez, fui bem anestesiada. Apenas uma picada. O tumor, por estar tão perto do mamilo, tornava tudo mais sensível. Mas fizeram o possível para que eu não sofresse mais do que o inevitável.
A colocação do arpão correu bem. Estava nervosa, claro. Com medo da dor. Mas com a ajuda da ecografia, a médica conseguiu localizar o tumor e inserir o arpão com precisão. O tecido mamário era denso e dificultava o procedimento, mas ela conseguiu.
O arpão é um fio metálico muito fino, que serve para marcar o tumor, neste caso, um tumor difícil de sentir ao toque. Assim, durante a cirurgia, o cirurgião saberia exatamente onde intervir.
Olhei para a mama e vi aquele fio metálico a sair. Sorri, meio incrédula.
Disseram-me a brincar:
- "Pronto, agora já tem uma antena! Pode escolher o canal de rádio que quiser!"
Rimo-nos. E naquele instante, o riso foi um alívio 😂
Fiz duas mamografias, uma delas lateral, para confirmar o posicionamento do arpão. Rodaram a “antena” em círculo e colocaram por cima um penso grande 🩹
Agradeci à equipa. Despediram-se de mim com um calor que me tocou. A assistente entregou os exames às duas senhoras que, felizmente, ainda me esperavam.
Antes de irmos, pediu-lhes que tivessem muito cuidado comigo:
- "O arpão não pode sair do sítio."
Voltei à ambulância, agora com uma antena no peito e uma cirurgia à espera.
Obrigada por estarem desse lado 🙏❤️
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